05/09/2021 às 19:08 Contos de Família

Nasce um irmão 

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Foi meu pai quem falou: “Vem Miguel, a gente precisa correr para a maternidade. Sua irmã vai nascer!” Saltei no susto e topei com o dedão bem na quina da cama, que dor mais doída. 

Com a chave do carro na mão e a máscara cobrindo o rosto, ele me acelerava lá da sala. 

“Vamos Miguel. Pegou a sua mochila? Pôs o tênis? Vestiu uma blusa?” Eu rodava desgovernado, mancando, segurando a dor dentro do dedo, do coração, na cara de choro, choro de emoção. E fui passando a mão nas coisas, mochila, blusa, tênis. 

Pai, quanto tempo até chegar na maternidade? 

Quinze minutos.

Quanto é quinze minutos?

Você conta quinze vezes até sessenta.

Pai, será que minha irmã se lembrou de trazer, lá do mundo dos bebês, o presente que eu pedi?

Com certeza, filho. Irmãos não se esquecem um dos outros.

Eu olhei para o meu pé. Engraçado, parece que meu coração tem pulsado bem no dedão que eu bati. Ainda dói, não dá nem pra encostar. E a unha? Está ficando roxa embaixo. Vou por um esparadrapo. Trouxe esse aqui na mochila caso o médico precise. A mamãe disse que ter bebê dói muito, esse esparadrapo vai resolver.

Pai, a gente já está chegando?

Faltam dez minutos.

Quanto é dez minutos?

Você conta dez vezes até sessenta.

Pai, os médicos que tiram os bebês da barriga, tem esparadrapo?

Tem sim filho. Por quê?

Eu trouxe um aqui, caso precise usar na mamãe.

Não sei por que ele ri. Essa coisa de ter irmão é coisa séria. Fiz aqui uma lista no meu caderno de coisas que eu e ela faremos juntos. Brincar no parquinho, brincar de blocos de montar, jogar videogame, andar de bicicleta, nadar na piscina, montar castelo de areia, voar até o infinito, montar uma casa de doces, escorregar no arco-íris,

Pai, você acha que no arco-íris dá para duas pessoas escorregarem juntas de mão dada, ou tem que ser um de cada vez?

No arco-íris pode tudo, filho.

Pai, já chegamos?

Faltam cinco minutos.

Quanto é cinco minutos?

Você conta cinco vezes até sessenta.

Parece que minha unha está mais escura agora. O dedo está grande, parece o dedão do meu pai. Será que meu pai bateu o dedo na quina da cama também? Deve ser por isso que o dedo dele é grande também. Acho que para crescer a gente precisa se machucar um pouco. 

O vovô disse pra mamãe: “Às vezes é preciso sofrer para crescer na vida”. Taí, agora entendi o vovô. 


Pai, 

Chegamos! Desce filho.

Eu peguei minha mochila, um pé descalço que já não cabia o dedo inchado, uma mão pegava a do meu pai a outra um pé do tênis. Eu não queria perder nada. Meu pai me tomou no colo, correu aquele corredor todo. Que corredor imenso. Ele me colocou de pé no banquinho de madeira, entrou pela porta que só os papais têm acesso e sumiu ao dobrar o outro corredor. 

Estava todo mundo ali, o vovô, a vovó, meus tios, tias primos. Todo mundo. Esse vidro na frente, essa cortina. Não entendi nada. Porque estávamos ali, não íamos ver a minha irmã 

nascer? E esse dedo? Corri rápido demais, voltou a doer. Eu tirei o esparadrapo, ele me apertava mais que antes, era o meu dedão que tinha crescido. Cresceu roxo. A unha estava preta na ponta. Será que vai mudar de cor ainda? Não sabia que machucados podiam trocar de cor tanto assim.

A cortina abriu. O papai a trouxe. Parecia uma trouxinha de roupa daquelas que a gente esquece em cima da cama, toda enrolada no cueiro. Eu vi o pé pra fora, o dedo roxo feito o meu. Desesperei, bati no vidro, peguei a mochila, mostrei o esparadrapo. Era o dedo roxo dela precisando de um curativo, mas meu pai a levou de volta e a moça cerrou a cortina de novo. 

Eu corri desesperado pra dentro da porta que só os papais entram, dobrei a mesma esquina que eles. Um corredor enorme na minha frente. Fui correndo, olhava as portas, nada. Um desespero. Continuei. A moça de azul gritava “Menino, você não pode entrar aí”. Já entrei moça, é minha irmã precisando de mim.

Eu vi meu pai. Ele tinha uma cara de espanto, a mesma que eu fiz quando olhei meu dedo preto, mais ainda quando eu vi o dedo roxo da minha irmã.

Filho, você não pode entrar aqui.

É o dedo dela pai. Tá roxo. Olha aqui, como o meu. Ela deve ter batido na quina da barriga da mamãe. 

Ele riu. De novo. Sempre rindo com coisa séria.

Quer segurar, filho?

Quero.


Eu ia embalando ela nos braços, parecia um passarinho nas minhas mãos. Os olhos dela procuraram os meus. Aqueles olhos cinzas seguiam os meus castanhos. Eu dei o meu dedinho pra ela segurar, foi apertando feito laço de fita em embrulho de presente. Acho que foi bem nessa hora que ela sentiu a vida ganhar forma dentro dela. Eu dei um pouco da minha, ela me deu um tanto da dela. Era a nossa família crescendo, igual o dedão do pé.

Dia 05 de setembro - Dia do irmão ❤️

05 Set 2021

Nasce um irmão 

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